quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Jornais que deviam ser recuperados só pelo título

Almocreve das Petas - Lisboa, 1798
Besta Esfolada - Lisboa, 1828
Distribuidor de Carapuças - Lisboa, 1864
Martelo Político - Lisboa, 1822
Matraca - Lisboa, 1847
Metralhadora - Porto, 1871
Noticiador Conciso - Coimbra, 1823
Pândego - Lisboa, 1857
Pêga - Lisboa, 1845
Piparote - Lisboa, 1865
Punhal dos Corcundas - Lisboa, 1824
Sapateiro Espreitador - Lisboa, 1855
Torniquete - Lisboa, 1863
Tripa Virada - Lisboa, 1823
Trombeta Final - Lisboa, 1828
Zacuto Lusitano - Lisboa, 1849

Ardina na Lisboa de 1909

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Alguns Provérbios e Não - Mário Cesariny

Pão a cozer - menino a ler
Mulher francesa - toalha na mesa
Vinho no copo - bandeira no topo
Menino esperto - Barquinho en el puerto
Homem pelintra - queijadas de Sintra
Neo-realista - ó ver a lista
Comida no papo - ária de sapo
Grande caçada - lua encarnada
Mão de três dedos - longos segredos
Gente que berra - marinheiro em terra
Mesa de pinho - carapauzinho
Água a correr - é de endoidecer
Muitos aviões - coçam-se os tufões
Homem roubado - boi encarnado
Primo penetra - etc.,etc.
Enterocolites - Frederico Nites
Rato esquimó - eduardó
Tabaco havano - extraordinariamente bacano
Americana - farafangana
Peles de coelho - vício velho
Mar agonie - assim é que é
Meretriz - roupinho fua
Pevide a ler - não pode ser
General Franco - sal tim tim banco
Láráritutátátzing - coistading


publicado em Antologia do Cadáver Esquisito (Assírio & Alvim, 1989), organizada por Mário Cesariny, com textos de Alexandre O'Neill, António Maria Lisboa, Cruzeiro Seixas, Ernesto Sampaio, Herberto Helder, Alfredo Margarido e José Sebag, entre outros.

"Cadavre Exquis", técnica comum entre os surrealistas, pretendia subverter a linguagem recorrendo ao "acaso objectivo".

Sem medos

domingo, 15 de janeiro de 2012

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Uma história para a Noite das Bruxas - O Bicho Cidrão

 
   O som é aterrador e toma conta do corpo e do espírito de quantos o ouvem, num misto de desassossego e angústia, num desejo de fugir e de ficar, numa ânsia indizível de despenhamento. Parece um uivo mas é também um grito, profundo e rouco que devia vir das entranhas da terra mas surge inesperado do alto da serra. São centenas de gargantas escancaradas e escarpadas gemendo alto uma dor qualquer que é natural, e por isso mesmo, sem tempo e sem fuga. (...)
   O Pico Cidrão é uma serra quase inacessível ao homem. Habitam-no o vento e a águia. Constituído por rocha basáltica, negra e dura, é todo ele recoberto de cavernas abertas como bocas escancaradas.
   Conta-se que há tempos habitou aquelas paisagens abruptas e quase inexpugnáveis um pastor. Esse homem tinha um cão que era o único e fiel amigo de muitas solidões. Habituado àquelas lonjuras feitas de escarpas, o cão tornara-se quase tão bom saltador quanto as cabras que guardava.
   Um dia, recolhia o pastor o seu rebanho, o cão, que andava atrás de um animal extraviado, calculou mal o salto e despenhou-se no vácuo, resvalando de escarpa em escarpa. Rolou; rasgou-se nas lâminas de pedra num uivo de dor imensa e acabou sendo ele mesmo um pouco de cada rocha.
   Como sempre ante o irremediável, o ser humano segue um de dois caminhos: ou se fecha num castelo inexpugnavelmente seco e silencioso, ou retribui à Natureza o golpe inexplicável e sempre tão aparentemente inútil que é a morte, num grito feroz de lágrimas.
   E o pastor fez-se eco do uivo do cão:
   - Que mãe és tu, que me rouba o irmão, o amigo!...
Tu, que tudo me tens negado, tu, vens tirar-me o companheiro da minha vereda!! Maldita sejas! Maldita... e só, para sempre! Ah! Antes o tivesse um dia oferecido ao Demo!...
   O vento tomou conta do uivo e da maldição, e das palavras fez sibilações. Enquanto o pastor viveu, guardou-as nas cavernas do Pico, escondidas e secretas, onde só a águia penetrava para as limpar da poeira do tempo. Quando, por fim, o pastor se foi juntar ao companheiro de outrora, o vento ordenou à águia que soltasse o uivo e a maldição que num eterno jogo de escondidas habitam desde então as alturas do Pico Cidrão.
   Dizem as gentes da região que aquele grituivo aterrorizante provém do ser híbrido e demoníaco que são os espíritos dos dois amigos, finalmente um só, o Bicho Cidrão.

in Lendas de Portugal, de Fernanda Frazão



Meredith Monk - Lost Wind

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lacrimosa


Lacrimosa de Zbigniew Preisner com imagens do filme "A Árvore da Vida" de Terrence Malick

sábado, 13 de agosto de 2011

H.G.Wells

Hoje assinalam-se 65 anos da morte de H.G.Wells, considerado um dos fundadores da ficção científica.

H.G.Wells nas filmagens de Things to Come (1936).

terça-feira, 26 de julho de 2011

Engenho e Arte

Em havendo olhos maus, não há obras boas.

Padre António Vieira



Les trois inventeurs, de Michel Ocelot, 1980

terça-feira, 19 de julho de 2011

Manias!

Para assinalar os 125 anos da morte de Cesário Verde:


Manias!

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

domingo, 17 de julho de 2011

Hardboiled Detective

Neste dia, há 6 anos, morria Mickey Spillane, escritor norte-americano de policiais, um dos mestres da chamada pulp fiction. Spillane também foi piloto de combate na 2ª Guerra, instrutor de voo, escritor de BD e actor - tendo chegado inclusive a representar o seu próprio herói literário - Mike Hammer - no filme The Girl Hunters (1963).
Deixo aqui um clip de Mike Hammer, representado por Darren McGavin, na série televisiva dos anos 50, bastante mais interessante, na minha opinião, do que aquela protagonizada por Stacey Keach, nos anos 80.




sexta-feira, 8 de julho de 2011

30 minutos ou 30 segundos?

Recentemente li um artigo muito interessante no Daily Mail. Versava sobre uma experiência feita no Tate Britain para apurar quais as obras de arte que mais despertavam a atenção do público. Este museu londrino detém uma colecção de arte bastante abrangente, que vai desde o século XVI até à actualidade, e isso tornou-o no palco ideal para um estudo dos padrões de observação dos visitantes - em particular quais as obras que prendiam a sua atenção durante mais tempo.
E estas foram as conclusões: as pessoas gastavam, em média, 5 segundos em frente de obras de artistas contemporâneos conceituados como Damien Hirst ou Tracey Emin, em contraste com vários minutos passados a visionar a arte mais tradicional, de séculos idos. Ophelia, de Millais, foi o quadro que obteve a observação mais longa - 30 minutos - enquanto que Colors, de Damien Hirst, não foi além dos 30 segundos.
Poderemos justificar unicamente estes resultados com a explicação usual de que o homem comum não tem educação nem sensibilidade suficientes para compreender as produções das elites vanguardistas? O Tate Britain, apesar de popular, não é um museu que atraia hordas de turistas, interessados ou não em Arte, como por exemplo, o Bristish Museum. O seu público é, no geral, bem informado. Dá que pensar... aqui fica o artigo para quem o quiser ler e tirar as suas próprias conclusões.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A romântica rebelde

Aurore Dupin, mais conhecida por George Sand, nasceu neste dia, há 207 anos, em Paris. Aclamada por nomes como Balzac, Flaubert ou Lizst, esta mulher das letras procurou sempre viver livre das rígidas convenções sociais da sua época. O seu comportamento e as suas produções literárias e ensaísticas geravam controvérsia. É por demais conhecido o escândalo que causava ao percorrer as ruas de Paris vestida como um homem e a fumar em público.
"Não consigo expressar o prazer que me davam as minhas botas. Com aquelas solas revestidas a ferro, sentia-me firme a andar pelas ruas e corri Paris de uma ponta a outra. Dava-me a sensação de que poderia dar a volta ao mundo. Com aquelas roupas não temia absolutamente nada." -  (em Histoire de Ma Vie).
A sua agitada vida sentimental - ficaram célebres as suas ligações com Alfred de Musset e Frederic Chopin, entre outros - foi condenada pela sociedade. Baudelaire dizia dela: "o facto de haver homens capazes de se apaixonarem por esta prostituta só prova a decadência dos homens desta geração."
De temperamento livre e independente, George Sand escreveu aos seus críticos: "Um dia o mundo compreender-me-á. Mas se esse dia não chegar, não importa. Terei aberto o caminho para outras mulheres."

domingo, 26 de junho de 2011

Calor

O sol a prumo sobre a praça parada...

As janelas têm as portadas fechadas à quentura.
Dentro das casas a vida está suspensa.

À sombra abafada de uma árvore,
um cão vagabundo dormita estendido,
e garotos brincam pacíficos e silenciosos.

Detrás dos balcões das casas comerciais,
os caixeiros bocejam e enxotam as moscas,
enquanto os patrões lêem os jornais e bocejam,
passando os lenços pelas frontes suadas.

Na torre da igreja, o relógio atrasado
dá uma hora vaga que ninguém espera...

A água cai do chafariz inútil...

Alberto de Serpa (1906-1992)








Emmerico Nunes (1888-1968), Sines, 45º à sombra

Há 192 anos, a 26 de Junho de 1819, a Bicicleta era patenteada.
Ficheiro:Bicycle evolution-numbers.svg

sábado, 25 de junho de 2011

África Austral

A 25 de Junho de 1975, o presidente Samora Machel declarava a independência de Moçambique.
Ficheiro:Flag of Mozambique.svg

quinta-feira, 23 de junho de 2011

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Happiness

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.



Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 21 de junho de 2011

O existencialista

No dia 21 de Junho, em 1905, nascia o filósofo, escritor e crítico francês Jean-Paul Sartre.

























"O homem não é nada mais do que aquilo que faz de si próprio."

sábado, 18 de junho de 2011

pequenas memórias

de José Saramago (16 de Novembro 1922 - 18 de Junho 2010)

(...) No lado direito do mesmo andar (ainda não saímos da Rua Padre Sena Freitas) morava uma família composta de marido e mulher, mais o filho de ambos. Ele era pintor numa fábrica de cerâmica, a Viúva Lamego, ali ao Intendente. A mulher era espanhola, não sei de que parte de Espanha, chamava-se Carmen, e o filho, um garotito loiro, teria, por esta altura, uns três anos (é assim que eu o recordo, como se nunca tivesse crescido durante o tempo que ali vivemos). Éramos bons amigos, esse pintor e eu, o que deverá parecer surpreendente, uma vez que se tratava de um adulto, com uma profissão fora do comum no meu minúsculo mundo de relações, enquanto eu não passava de um adolescente desajeitado, cheio de dúvidas e certezas, mas tão pouco consciente de umas como das outras. O apelido dele era Chaves, do nome próprio não me lembro, ou nunca o cheguei a saber, para mim foi sempre, e apenas, o Senhor Chaves. Para adiantar trabalho ou talvez para cobrar horas extraordinárias, ele fazia serão em casa, e era nessas alturas que eu o ia visitar. (...) Eu gostava de o ver pintar os barros, cobertos de vidrado por fundir, com uma tinta quase cinzenta que, depois da cozedura, se transformaria no conhecido tom azul deste tipo de cerâmica. Enquanto as flores, as volutas, os arabescos, os encordoados iam aparecendo sob os pincéis, conversávamos. (...) um dia levei-lhe uma quadra ao jeito popular que ele pintou num pratinho em forma de coração e cuja destinatária seria a Ilda Reis, a quem começara a namorar. Se a memória não me falha, terá sido esta a minha primeira "composição poética", um tanto tardia, diga-se em abono da verdade, se pensarmos que eu ia a caminho dos dezoito anos, se não os havia cumprido já. Fui felicitadíssimo pelo amigo Chaves, que era de opinião que deveria apresentar-me a uns jogos florais, esses deliciosos certames poéticos, então muito em voga, que só a ingenuidade salvava do ridículo. O produto do meu estro rezava assim: "Cautela, que ningúem ouça / O segredo que te digo: / Dou-te um coração de louça / Porque o meu anda contigo." Reconheça-se que eu teria merecido, pelo menos, a violeta de prata... (...)

José Saramago, As Pequenas Memórias, Caminho, 2006 (texto com supressões)